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'Se São Paulo está tão bem, por que não paga à F1?'



Mineiro de Belo Horizonte, JR Pereira, de 45 anos, formou-se em negócios e administração na Universidade do Oregon (EUA), em engenharia na PUC-MG e trabalhou por anos na Lockheed Martin, de aviação bélica. Há 12 anos no Rio, esse motociclista amador lidera o consórcio Rio Motorsports, baseado nos EUA, que espera o edital de construção do circuito de Deodoro (orçado em R$ 697 milhões), conforme termo de compromisso assinado por Jair Bolsonaro na quarta.

Por que investir num autódromo no Rio agora?

Começou a ser interessante em 2016: as construtoras não tinham interesse e havia a questão da limpeza dos explosivos no terreno. Na época, o engenheiro alemão Hermann Tilke ( construtor de cinco circuitos do Mundial de F1 ) viu a chance de uma pista muito interessante. Não tínhamos nenhuma pretensão de trazer a F1. A meta era a MotoGP, um Mundial que não está no Brasil e que tem a cara do Rio. O Rio tinha construído o BRT, reformado aeroporto e já estava projetado no mundo. Isso tudo ajudou.

Quando falam de arenas no Rio, o trauma é grande, e os cofres públicos sangram. Por que Deodoro seria diferente?

O autódromo é investimento privado, não tem dinheiro público. Já há o investimento em infraestrutura tanto da Barra quanto da Zona Sul, via metrô: hoje, Deodoro é muito melhor que vários autódromos, como Nurburgring e Hockenheim. Quase todos exigem transporte privado.

Bom, o terreno cedido já é um ativo público…

(Interrompe) É um ativo do Exército, que foi uma contrapartida para erguer o centro olímpico na Barra. Então, estamos não só dando segurança jurídica aos Jogos Olímpicos. Era uma promessa, foi criada uma lei específica para instalação do autódromo e agora estamos executando.

… e há uma taxa que se paga pelo GP. No Azerbaijão, Baku paga US$ 60 milhões. Quem pagará esse “fee? no Rio?

Quem paga essa taxa é o promotor da prova. Em alguns lugares do mundo, os governos pagam esse fee e usam a prova para marketing internacional. No caso do Rio, é uma prova privada. Para você ter um modelo econômico viável, a escala permite assentos para mais de 100 mil pessoas. Com essa escala, você tem a modelagem econômica necessária.

 

Mas existe a possibilidade de entrar dinheiro público nesse pagamento de taxa?

Existem várias leis de incentivo ao esporte, em que você tem que demonstrar contrapartida. Mas isso são leis que já existem no Brasil. Não há necessidade de mudar nada, nem estamos pedindo nada neste momento.

De quanto seria o “fee? no Rio, e qual contrapartida viria?

Os valores do Rio são confidenciais. A gente sabe que São Paulo chegou a pagar US$ 27 milhões no último ano, acho que em 2016. Sobre contrapartida: de cara, Austin no Texas (para 60 mil pessoas) traz para a cidade 115 mil turistas. Já o do México, para 110 mil, leva 160 mil por dia ao autódromo. E do ponto de vista do marketing espontâneo, retorno de mais R$ 2 bilhões.

Só que São Paulo promete endurecer. Fala-se que a prefeitura vai exercer uma opção de renovação até 2025.

As negociações que temos com a F1 mostram que essa informação não procede. Em nenhum momento a F1 nos disse que uma opção de contrato poderia inviabilizar a candidatura do Rio, ou não estaria conversando conosco para 2021 (sobre as datas, ele diz que Bolsonaro, ao dizer que o GP viria para o Rio em 2020, deve ter se confundido) . Se São Paulo está tão bem, por que não paga à F1? Está inadimplente em todos os relatórios que conhecemos. O atual promoter de São Paulo ( Támás Rohonyi, da Interpub ) disse que mal paga os custos. Parece que nossa conversa vai indo bem.

Mas por que a F1 quer o Rio?

O autódromo de SP ? que é um belo autódromo ? comporta 65 mil pessoas, o que é inviável para a modelagem econômica. E alguém tem que pagar a taxa para a F1. Sabemos que a operação lá é pública, pela SPTuris. Além disso, a reforma de Interlagos era feita através do Ministério do Turismo, quando governo federal e prefeitura eram do mesmo partido (PT), e a Liberty Media percebeu que o novo governo não dará esse incentivo.

Projeto da Rio Motorsports do novo autódromo, em Deodoro. Reta teria 1,2 km de extensão Foto: Divulgação/ Consórcio Rio Motorsports
Projeto da Rio Motorsports do novo autódromo, em Deodoro. Reta teria 1,2 km de extensão Foto: Divulgação/ Consórcio Rio Motorsports

 

Fizeram várias reformas e, mesmo assim, não há segurança para motociclismo. Todo ano tem fatalidades lá, no mês passado morreu um ( Mauricio Paludete, da Superbike ). Por isso, a MotoGP não vai para lá. São Paulo parou no tempo. Poderiam ter feito uma nova pista em outro lugar, com mais assentos. Interlagos só tem 1.800 paddocks VIPs para grandes patrocinadores, enquanto a nova F1 necessita de 5 mil. Fora que antes havia um anúncio de privatização na câmara; depois o ( ex-prefeito e governador ) Doria anuncia que o Bernie Ecclestone (ex-dono da F1) ia comprar; hoje, tudo mudou e será uma concessão. A insegurança jurídica é grande. Quando você soma esses fatores, começa a entender por que a F1 foi olhar para outro lugar. E os pilotos amavam correr aqui.

Mas não dá para abrir um autódromo só para duas provas. Como fecha a conta?

Dentro do que posso revelar dos planos ? porque estamos ainda em concorrência ?, a ideia é ser também um equipamento de alta tecnologia, na parte de combustíveis, lubrificantes e peças. Vamos atrair empresas que querem voltar ao Brasil. E haverá shows, festivais, projetos esportivos para integrar as comunidades do entorno, com ciclismo e skate.

Uma audiência na Câmara do Rio hoje debaterá o futuro da floresta do Camboatá, na área designada. Ambientalistas falam que há outros cinco terrenos que não afetariam a mata atlântica. Como vê isso?

Esse estudo já foi feito na época da Olimpíada para que entrasse num caderno de encargos. E foi esse terreno que se encontrou, e ele foi escolhido porque estava contaminado. Aquilo era uma fazenda de café, chamada Sapopemba, que o Exército comprou.

O que me espanta é que, na época em que tinha treinamento bélico e instrução, ninguém nunca achou ruim. Agora que nós estamos falando de algo que já virou lei, que foi acertado com COB, prefeitura, CBA e União, um movimento diz que aquilo lá é uma floresta. Acabada a concorrência, haverá um estudo de impacto ambiental (EIA), que será seguido.

Fonte: O Globo


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