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Ex-adversários 'do tempo da chuteira preta' relembram passagens por Flamengo e Vasco



O meia Michel recebeu a bola na diagonal e apontava em direção ao gol. O único recurso do volante Cristiano Cerezo era um carrinho lateral para evitar a mudança de placar. Era um Flamengo e Vasco, de juniores, preliminar do clássico profissional num Maracanã lotado, com mais de 100 mil pessoas, no Carioca de 1995. Quase 20 anos depois, a versão do fim do lance diverge: o defensor diz que foi limpo na jogada; o camisa 10 afirma que algumas cicatrizes nas pernas são daquele tempo.

Brincadeiras de dois amigos de longa data, que rememoram os tempos de jogador dos dois finalistas do Carioca deste ano. E celebram os caminhos que os mantiveram, de alguma forma, próximo dos times de coração. Michel, que se aposentou em 2011, reencontra velhos companheiros a cada ida ao Ninho do Urubu. Agora, trabalha como motorista, levando repórteres para cobrir o dia a dia do rubro-negro.

– Juan é da minha época, e muitos do pessoal do apoio, massagistas, roupeiros, eram da base. Quando entro no Ninho, todo mundo me conhece – conta Michel, de 40 anos, que jogou vários clássicos nos juniores, mas teve o auge da carreira no Goiás, no ataque formado por Fernandão e Dill.

Cristiano Cerezo ao lado de Felipe na base do Vasco Foto: Arquivo Pessoal
Cristiano Cerezo ao lado de Felipe na base do Vasco Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Cristiano, que participou das campanhas do Brasileiro de 1997 e Libertadores de 1998, é porteiro do Centro de Treinamento do Vasco, na Barra da Tijuca, para Maxi López, Pikachu & Cia. E também para os ex-companheiros Carlos Germano e Ramon, que  trabalham no clube. Nunca deixou o futebol totalmente, e toca a escolinha Cara Virada, em Campo Grande, para descobrir novos talentos na base.

– Tive a oportunidade de voltar ao clube. Ainda não foi no campo – diz Cristiano, de 43 anos, que se orgulha de ter marcado o croata Prosinecki num confronto entre Vasco e Barcelona, de Cruyff, em 1995, num torneio em Palma de Mallorca.

Nenhum dos dois demonstra mágoas por carreiras interrompidas por lesões ou falta de oportunidades melhores. Sabem que se tornar um Sávio ou Carlos Germano, por exemplo, é para poucos. O sucesso no futebol, dizem, exige uma equação que envolve talento, sorte e um bom olheiro.

– Muitos nem chegaram onde nós chegamos. Fizemos o que gostamos por um bom tempo – avalia Michel.

– Ouvi da minha mãe quando comecei a jogar: “Quero que tenha alegria e liderança para ter sucesso, não importa o que você faça”. Só tenho a agradecer ao futebol e ao Vasco por tudo que conquistei – relata.

DO MESMO LADO

Os dois lamentam os tempos menos profissionais em que surgiram no esporte. Crias de antes da Lei Pelé, ficaram presos aos clubes formadores ou a contratos ruins. Salários e condições de trabalho também eram muito distantes dos de hoje. Os craques vindos da base de então ganhavam, no máximo, R$ 2 mil.

– A gente é do tempo da chuteira preta – conclui Michel.

Michel teve seu auge no Goiás, em 2000 Foto: Divulgação
Michel teve seu auge no Goiás, em 2000 Foto: Divulgação

Neste domingo, assistirão ao jogo na TV. Sem previsões, afinal é clássico. O Maracanã ficou no passado para Michel. Ele não gosta de ir a estádios, pois se irrita com os comentários das arquibancadas. Nem camisa do Flamengo tem no seu armário. Deu todas elas, inclusive dos outros clubes, a amigos e parentes.

Cristiano ainda frequenta estádios, sobretudo por causa do projeto, e em São Januário. Também não tem mais apreço às camisas. Só veste a de trabalho, com uma discreta cruz de malta.

Eles preferem deixar na memória os momentos em campo. Michel tenta puxar seu Flamengo e Vasco inesquecível, e só se lembra de um título da base em 1997, em São Januário.

– Ele ganhou pouco, por isso não lembra – brinca Cristiano Cerezo, que se recorda de uma virada, com um a menos, também na base, em 1993. – O Flamengo tinha um timaço, Sávio, Fabio Baiano… ganhamos por 3 a 2. Vi que ia conseguir chegar ao profissional naquele jogo.

Os amigos, agora, estão do mesmo lado nos campos de pelada. Cristiano ainda joga no master do Vasco (tem um grupo de whatsapp com os campeões da América de 98) e nos gramados da cidade ao lado de Michel, e de outros parceiros de base.

– Agora, não apanho mais – brinca Michel.

– E ele ganha muito, pois está do meu lado – rebate Cristiano.

Fonte: O Globo


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