O Flamengo vivia momento delicado na temporada de 2000 quando a repentina mudança de horário de um treino surpreendeu a imprensa. O elenco, que estava previsto para trabalhar na parte da tarde, foi para a Gávea de manhã. Os repórteres que acompanharam a atividade viram os jogadores deixarem o local rapidamente e não demoraram muito para descobrirem o motivo da pressa ? uma festa com profissionais do sexo estava prevista para acontecer em um sítio.

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As equipes de reportagem então partiram para o local onde supostamente aconteceria a festa íntima. Chegando lá, o primeiro sinal de que estavam no lugar certo: seguranças do departamento de futebol, funcionários do clube, estavam plantados na entrada. Um repórter fotográfico conseguiu bom ângulo para dentro do terreno e confirmou que eram os jogadores treinados por Carlinhos que estavam acompanhados das mulheres.

O fato de estarem com prostitutas não se configura um problema, tampouco violência sexual. O que na verdade o episódio de 20 anos atrás ? ainda comum nos dias atuais, segundo fontes ouvidas pela reportagem, mas com outro modus operandi ? retrata é como a cultura da objetificação da mulher está enraizada no futebol masculino no Brasil e em seus grupos sociais.

Quase sempre com a conivência de dirigentes, por vezes até institucionalizada pelos clubes, como foi no caso rubro-negro, a visão da mulher como um mero objeto de diversão retrata um comportamento mais amplo da sociedade que, no mundo da bola, ganha contornos específicos. E, eventualmente, pode descambar para casos violentos como do atacante Robinho, condenado em primeira instância por estupro de uma mulher em uma boate italiana, em 2013.

? O universo do futebol valoriza uma certa virilidade que considero obsoleta, que é a do jogador poderoso, midiático, que tem tudo que quer, todas as mulheres que deseja ? afirma Silvana Goellner, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora e ativista pelas mulheres no esporte. ? No futebol, os riscos são maiores de acontecer o que aconteceu no caso do Robinho.

?O mundo na mão?

Os episódios recentes se repetem. Cristiano Ronaldo admitiu ter pago R$ 1,5 milhão à modelo Kathryn Mayorga, que o acusou de estupro em 2009, para encerrar o caso em segredo. Em 2011, Marcelinho Paraíba chegou a ser preso, mas pagou fiança por agressão e deixou a cadeia. Mancini foi preso e condenado a três anos de prisão pelo crime, cometido também em 2011, na Itália. Danilinho teria cometido estupro em 2013, no México, e a vítima, retirado a denúncia depois de ser ameaçada de morte. Jobson, por sua vez, aguarda julgamento após acusação de estupro de quatro menores de idade em 2016, ano em que esteve preso. Todos eles negam as acusações.

Nada impede que o número de casos seja bem maior do que os que ganharam notoriedade. Muitas vítimas não denunciam, por medo ou vergonha. Estima-se que, no Brasil, apenas 36% dos casos de estupro sejam notificados. Ainda assim, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, um estupro acontece no país a cada oito minutos. Uma dúzia a cada partida de futebol.

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Em comum entre todos os casos citados, as peculiaridades da vida do jogador de futebol: a mistura de dinheiro, enriquecimento rápido, fama e idolatria, capaz de colocá-los em um mundo paralelo.

? O futebol oferece status, poder financeiro, visibilidade. Você faz o gol e vê um estádio inteiro gritando seu nome. Por muito tempo, o jogador é levado a pensar: ?tenho todo o mundo na mão?. É uma sensação de rei. Isso fica enraizado. Ele chega num bar, numa boate, todo mundo o aplaude, quer falar com ele. O ego sobe muito e, quando qualquer coisa na vida passa do limite, perde-se o senso de realidade. E isso vale para cigarro, droga, racismo, machismo… ? afirmou Casagrande, ex-jogador e atual comentarista da TV Globo.

Ele lembra os tempos de atleta: todos os dias um jogador aparecia no vestiário contando uma história de mulher, reforçando a ideia de virilidade e masculinidade medida pela quantidade de relações sexuais.

Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da UnB, explica que o futebol intensifica a cultura do estupro porque chancela na virilidade laborativa o sucesso desses homens, aumentando suas chances de exercerem a virilidade sexual. Além disso, o valioso não é o ato sexual em si, mas sim a validação de amigos e colegas.

? No caso dessas festas com sexo grupal, o mais importante é o olhar do homem um para o outro performando a objetificação sexual como algo que afirma a masculinidade. E não só ficar com a mulher, mas contar para os amigos, é muito importante. Aí precisamos questionar que masculinidade é essa tão pautada na violência e principalmente na transformação das mulheres em coisas ou pedaços de coisas ? disse Zanello.

Cultura do estupro

No Nordeste, onde a prostituição infantil é um problema histórico, há casos de mães que oferecem as filhas aos jogadores dos clubes. O assédio aos atletas é ostensivo e facilita a reprodução da ideia de submissão feminina.

Quando não é vista como inferior, existe a culpabilização da mulher. O jogador de futebol é moldado, desde a base, quando flerta com o sucesso em campo, pelos alertas a respeito do “golpe da barriga?, em que mulheres oferecem o sexo casual na tentativa de engravidar, eximindo-os da corresponsabilidade, no caso de uma gestação. É uma inversão de valores, algo comum na cultura do estupro, onde repetidamente a mulher é deslocada para o papel de culpada ao ser questionada a respeito da roupa que vestia, do local por onde passava ou da quantidade de álcool que havia ingerido ? caso da vítima de Robinho.

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A ideia de que o homem tem controle e poder sobre a mulher é o que abre o caminho para que um crime seja cometido, variando entre agressão, estupro ou feminicídio. Esse valor é aprendido em uma sociedade marcada por desigualdades, incluindo a de gênero:

? As características do jogador de futebol são fatores de risco, digamos assim. Tem poder e controle, que perpassa pelo fator econômico, pelo glamour, pela sua representatividade cultural ? afirma Luciene Medeiros, doutora em serviço social, professora da PUC-Rio, que estuda a violência contra a mulher.

Mas esse comportamento tem sofrido alterações forçadas nos últimos tempos. Uma delas diz respeito à discrição. Na era da superexposição gerada por smartphones e redes sociais, o jogador tem aprendido que determinados comportamentos não passarão despercebidos e que podem facilmente gerar críticas prejudiciais à sua imagem e aos contratos publicitários que assina.

O futebol atual exige novas posturas, mais profissionais. Em 2015, jogadores do Flamengo ficaram conhecidos como o”Bonde da Stella? por darem uma festa com bebidas e mulheres depois do treino. A diretoria do clube, ao tomar conhecimento, optou por puni-los, mesmo que estivessem de folga.

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A própria sociedade é cada vez menos tolerante. A repercussão de casos como o de Robinho, que teve o contrato com o Santos suspenso depois de forte rejeição nas redes sociais e dos patrocinadores do clube, ajuda a educar as novas gerações de atletas, afirma Paulo Ribeiro, psicólogo do Botafogo:

? Quanto mais se fala a respeito com os jogadores, melhor é o comportamento.

Socióloga do esporte e professora da Uerj, Leda Costa reforça:

? Existe um imaginário em torno do futebol extremamente perigoso e fortemente enganador: o imaginário de que o futebol é território onde se pode tudo e que sua graça é justamente essa. É preciso desintoxicar o futebol do machismo. Esse processo será longo, creio que já foi iniciado e espero que não tenha volta.

(Colaborou Diogo Dantas)