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Qatar e Emirados Árabes fazem semifinal de uma Copa da Ásia repleta de tons políticos



Há três caracterísitcas indispensáveis para quem deseja apresentar o Qatar, país-sede da Copa do Mundo de 2022, a alguém que pouco (ou nada) saiba sobre ele. Seu território compreende uma pequena península no Oriente Médio, quatro vezes menor que o estado do Rio de Janeiro. Graças à combinação de população reduzida (2,6 milhões de pessoas) e fartas reservas de petróleo, é dono do maior PIB per capita do mundo. Por fim, é um país cercado de inimigos diplomáticos (ou água) por todos os lados.

No caso da surpreendente campanha na Copa da Ásia deste ano, com uma semifinal marcada para esta terça-feira, ao meio-dia (horário de Brasília), contra a seleção anfitriã dos Emirados Árabes Unidos, a última característica é a mais importante de ser tem mente.

Não só para o Qatar, diga-se de passagem. O componente político tem sido uma marca importante em todo o torneio, organizado pela Confederação de Futebol da Ásia (AFC, na sigla em inglês), cujo presidente Sheikh Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa está mergulhado numa polêmica tentativa de extradição de um jogador do Bahrein, Hakeem Al-Arabi, que foi preso em dezembro na Tailândia.

A competição tem sido disputada nos Emirados Árabes, país que liderou um corte de relações diplomáticas com o Qatar em 2017, após acusar a monarquia qatari de ser conivente com o financiamento de grupos terroristas. Outros vizinhos no Oriente Médio, como Bahrein e Arábia Saudita, também aderiram ao bloqueio político. Este será o primeiro duelo entre as seleções de Qatar e Emirados Árabes desde o início do bloqueio.

Além de consequências econômicas, o movimento inviabilizou a presença de torcedores qataris na Copa da Ásia deste ano – justamente a edição de melhor desempenho da seleção, que jamais havia alcançado a semifinal.

Torcedor (quase) solitário exibe a bandeira do Qatar na partida contra a Arábia Saudita Foto: KHALED DESOUKI / AFP
Torcedor (quase) solitário exibe a bandeira do Qatar na partida contra a Arábia Saudita Foto: KHALED DESOUKI / AFP

‘Clássico do bloqueio’

No jogo desta terça, apelidado de “Clássico do Bloqueio”, a expectativa é de que todo o estádio Mohammed Bin Zayed, em Abu Dhabi, seja tomado pela torcida emirati. Não bastasse o apelo da partida, que vale vaga na decisão da Copa da Ásia, o governo local anunciou que compraria todos os ingressos restantes e distribuiria gratuitamente para “torcedores leais”.

A torcida qatari só tem conseguido acompanhar a campanha de sua seleção pela televisão. Os direitos de transmissão da Copa da Ásia pertencem à beIN Sports, cadeia televisa do Qatar. O sinal foi pirateado por uma rede identificada como “beoutQ”, que passou a transmitir os jogos para os países inimigos do Qatar, escondendo a logomarca da beIN. Segundo a emissora qatari, a base de operações da TV pirata é a Arábia Saudita.

– O futebol tem sido usado nas disputas regionais entre Qatar e Emirados Árabes. O governo de Abu Dhabi, na medida em que tenta enfraquecer o Qatar, tem colocado sob dúvida a integridade da sua candidatura à Copa de 2022 – afirmou ao GLOBO o jornalista James Dorsey, autor do livro “O mundo turbulento do futebol no Oriente Médio”.

O confronto entre suas seleções não é a única arena em que Emirados Árabes e Qatar enxergam uma oportunidade para se projetar internacionalmente no esporte. Os governos de ambos os países mantêm grandes investimentos no futebol europeu, especialmente no Manchester City, no caso da família real emirati, e no Paris Saint-Germain, no caso da monarquia qatari.

– O futebol é particularmente atrativo para esses governos por causa de sua popularidade global. Parece ser a melhor maneira para que esses países construam influências e suas economias – observa Christopher Davidson, especialista em política no Oriente Médio e membro da Duhram University. – São governos que veem investimentos em esporte, arte e cultura como estratégia de soft power. O Qatar está usando a Copa de 2022 para melhorar sua reputação. Acredito que seria muito difícil conquistar os direitos da Copa do Mundo se já não estivessem bastante envolvidos com futebol no plano internacional.

Almoez Ali, artilheiro do Qatar, comemora um de seus gols na vitória sobre a Arábia Saudita Foto: SUHAIB SALEM / REUTERS
Almoez Ali, artilheiro do Qatar, comemora um de seus gols na vitória sobre a Arábia Saudita Foto: SUHAIB SALEM / REUTERS

Quando enfrentou outro adversário político nesta Copa da Ásia – a Arábia Saudita, na fase de grupos -, o Qatar venceu por 2 a 0 com dois gols de Almoez Ali, artilheiro da competição. Os raros gritos de apoio ao Qatar nas arquibancadas em Abu Dhabi partiam de torcedores de Omã, nação do Oriente Médio que não aderiu ao bloqueio.

Negligência com refugiado

Se o caldeirão político da Copa da Ásia estivesse limitado às tensões entre Qatar e outros países, a organização do torneio estaria bem mais tranquila. Só que a própria Confederação de Futebol da Ásia (AFC) acabou implicada no impasse envolvendo Hakeem Al-Araibi , jogador que nasceu no Bahrein e havia ganhado status de refugiado na Austrália. Al-Araibi foi preso há dois meses, enquanto passava férias com a mulher na Tailândia, e tem contra si um pedido de extradição feito pelo governo do Bahrein, de onde fugiu como perseguido político em 2014.

A confederação asiática recebeu críticas de atletas e defensores dos direitos humanos por manter uma postura reticente durante a prisão de Al-Araibi. Um comunicado divulgado pela AFC no domingo, em vez de serenar as críticas, serviu para aumentar as acusações de negligência com a situação do jogador.

Hakeem Al-Araibi foi preso na Tailândia em dezembro: jogador corre risco de ser extraditado para o Bahrein Foto: Athit Perawongmetha / REUTERS
Hakeem Al-Araibi foi preso na Tailândia em dezembro: jogador corre risco de ser extraditado para o Bahrein Foto: Athit Perawongmetha / REUTERS

No comunicado, a entidade reafirma que tem trabalhado com a Fifa para resolver a situação de Al Arabi, mas também avisa que o vice-presidente Praful Patel é quem lidera as tratativas para evitar “acusações de conflito de interesses envolvendo o presidente da AFC, Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa”.

Sheikh Salman, como é conhecido, é membro da família real que comanda o governo do Bahrein. O cartola, que disputou a última eleição para a presidência da Fifa, já foi criticado publicamente por Al-Araibi por sua conivência com abusos de direitos humanos no país. Hoje em dia, Sheikh Salman é também um dos vice-presidentes da Fifa.

Instada a ter participação mais forte no drama vivido por Al-Araibi, a Fifa enviou uma carta, na última quarta-feira, ao primeiro-ministro da Tailândia, Prayut Chan-o-cha, em que classifica como “muito preocupante” a situação de Al-Araibi. O documento, assinado pela secretária-geral Fatma Samoura, pede um encontro entre representantes da Fifa e do governo tailandês, convocado a tomar as medidas necessárias para garantir um “retorno seguro” de Al-Araibi à Austrália.

Além disso, a carta frisa que a detenção do jogador não deveria ter acontecido, “já que Al-Araibi agora vive, trabalha e atua como jogador profissional na Austrália, onde ele recebeu status de refugiado”.

Sheikh Salman bin Ibrahim Al-Khalifa é o presidente da Confederação de Futebol da Ásia (AFC) Foto: Hasan Jamali / AP
Sheikh Salman bin Ibrahim Al-Khalifa é o presidente da Confederação de Futebol da Ásia (AFC) Foto: Hasan Jamali / AP

Al-Araibi foi preso pelas autoridades do Bahrein em 2012, acusado de vandalizar uma cabine policial durante manifestações de insurgência contra o governo, que ganharam força na chamada “Primavera Árabe”. O atleta, que nega as acusações, denunciou o governo do Bahrein por tortura contra ele e outros jogadores de futebol que haviam sido presos por conta de seus posicionamentos políticos. Na época, Salman foi acusado de formar uma “comissão da verdade” destinada a identificar atletas que protestavam contra o governo. O cartola nega as acusações.

Um dos principais nomes do esporte a participar dos protestos foi o atacante A’ala Hubail, artilheiro da Copa da Ásia de 2004, quando o Bahrein atingiu uma histórica quarta colocação. Na edição deste ano, a seleção do Bahrein foi eliminada nas oitavas de final, contra a Coréia do Sul.

“Quando lhe concederam status de refugiado, as autoridades australianas concluíram que Al-Araibi corre sério risco de maus tratos em seu país natal”, afirma a carta da Fifa.

Fonte: O Globo


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